QUELUZ DE MINAS

 

 “Tal como o passado não é a história, mas o seu objeto, também a memória não é a história, mas um dos seus objetos e, simultaneamente, um nível elementar de elaboração histórica.”

(Jaques Le Goff)

 

Prá Frente Brasil!

 

A minha geração foi a da Copa. 
Cantávamos “Prá Frente Brasil “ “Salve a Seleção !” 


Na minha infância, aprendemos todas as  formas de obediência e comungávamos o silêncio em relação à qualquer memória do passado. Os adultos não conversavam perto da gente. 
Tiradentes, até então, ainda era barbudo e o Borba Gato, cheio de roupas grossas, empunhava um bacamarte... 

Depois veio a época da Faculdade.

Alguns professores continuaram em silêncio...
Não podíamos discordar das “autoridades” e nem mesmo questioná-las.

"_Manda quem pode, obedece quem tem juízo!"
Somente após a Constituição de 1988 é que determinadas informações, livros e assuntos começaram a circular. 
O Brasil tinha sonhos e realizávamos esses sonhos através de intenso intercâmbio científico e cultural. 

Como as ações são sempre globais e o tempo implacavelmente nos convida a olhar para o passado, o Brasil começou a crescer de forma diferente.
E isso era noticiado constantemente nos jornais.  


No dia de ontem, ouvi uma Índia falando na TV.
Era nítido que essa mesma índia, deputada eleita pelo povo, falava de forma representativa. 
E o que ela afirmava,  procedia.
Havia muita tensão emocional no seu discurso político. 
Mas disse coisas significativas como essa:


No Dia do Índio, os professores dizem para os alunos que os índios moram em aldeias, que os seus filhos dormem em redes, e apontam a imagem distante pregada na parede ou no quadro negro. 
Depois... podem até levar as crianças para visitar a aldeia... 

Falam do índio à distância. 
E sempre apontando o índio como alguém do passado...
Distante...

Mas o "índio"  também está ali, bem na frente deles.
Mas continuam falando deles como se já estivessem mortos...”

 

Em seguida, com um discurso forte, apontava o eurocentrismo que ainda hoje vivemos nas nossas escolas e nos modelos escolares. E é a mais pura verdade o que ela disse. 

Por isso, achei pertinente escrever esse texto. 
No dia do Índio, devo olhar agora o "índio" que existe em meu próprio espelho. 

O "índio" que está  sentado ao meu lado. 
Índios somos todos ! 

A genética já mostrou isso no sangue dos mineiros. 


E o “Campo Alegre dos Carijós”, defendido por algumas pessoas do passado, passa fazer ainda mais sentido. 


Nossas memórias identitárias revelam traços claramente marcados por essa miscigenação. 
Traços também judaicos, europeus, quilombolas...

O componente tribal está presente o tempo todo na nossas memórias mineiras.

Banho de rio .
Colar de lágrimas de Cristo.
Tear.
Os alimentos típicos : angu, farinha, mandioca.

Carne de porco.
Conversas ao redor da mesa.
Influência e importância  patriarcal/matriarcal dos avós nas decisões familiares.
Parentesco descrito de forma oral, mais do que de forma escrita.
“Fulano era filha de ciclano, mãe de Beltrano...” 

Memórias de qual "tribo" ?

Israel?

Carijós? Puris? Bororós?

Afro-descendentes e quilombolas? 


D.Maria I, no seu Palácio de Queluz, decretou a proteção para os portugueses da região, elevando o então Arraial à categoria de Villa e protegendo, dessa forma, os seus representantes, membros da Corte e amigos da Coroa Portuguesa,

Havia uma Coletoria na Vila onde o ouro passava constantemente, tanto para descer para Parati quanto para descer para o Rio de Janeiro. A região era  povoada por índios, negros e brancos. 
Todos conviviam no mesmo espaço físico.
Os homens da região tinham muitos filhos para povoar toda a Terra...
Eram os líderes da Terra. 

 

A autoridade Papal só se instala na então sociedade daquela época apenas depois de um tempo. 

A relação do poder instituído migra paulatinamente para mais distante dos centros populacionais de origem.

O comando central,  nascido da institucionalização natural do país, começa a governar cada vez mais "à distância". 
A arquitetura mineira colonial nos remete ao passado da região; ao redor do adro da Igreja em um modelo claramente tribal.

Nascem os templos.

Templos esses descritos com acurada precisão pelos padres memorialistas da região. feitos à partir do dinheiro e do esforço, inclusive braçal, de cada um dos habitantes locais.

 

Construídas, geralmente em círculos, ao redor da Igreja, as casas dos principais líderes e comerciantes locais se desenhavam.

O poder, agora irmanado em uma só família chamada de Cidade, recebe as suas insígneas, considerações  e nomeações sociais e/ou funcionais: padre; delegado; juiz; pedreiro; farmacêutico; advogado...

 

Deixam-se as divisões etnicas de lado para nascerem as divisões por ofícios e funções sociais.

 

O Poder modififica a sua própria face ao ritmo natural e cicardiano, marcado ainda pela natureza e pelo tocar dos  sinos anunciando as mortes e as missas locais.
Casas de arquitetura e economia autossustentável: jardins na frente e pomar de frutas e pequenas plantações e animais ao fundo. Cidade de "livros e flores".

 

E a cidade era assim mesmo, quando eu, ainda pequena, percorria as suas ruas, visitando as pessoas e frequentando o comércio local. Éramos uma comunidade no seu mais estreito sentimento de comum e unidade. 

Uma cidade familiar própera e de profundo bom gosto. 

Tecidos finíssimos chegavam nas lojas oriundos das diversas fábricas nacionais.

Brinquedos e bonecas da "Estrela".

Móveis de madeira natural (pois haviam ainda as árvores no Brasil) eram confeccionados com perfeição e esmero pois os nossos mestres eram exigentes e perfeccionistas !


Depois veio a Faculdade, o crescimento fora do "Campo Alegre".

O estudo, o trabalho e o engajamento social na capital mineira.

Já não era mais meu tudo isso.

Somente após a edição do site e dos livros com o meu pai, que eu percebi que tudo isso havia sido escrito por vários escritores, funcionários e historiadores mineiros. Muitos eram da Imprensa Official do Estado. 

Não haviam histórias ou estórias a mais para contar. 

Elas estavam sendo gradualmente esquecidas e perdidas. 

 

Mas... por quê eu nada sabia sobre isso?

Era um saber misterioso e oculto?


Percebi que o Brasil deixava de ser redondo e conectado com as estrelas. 
Olhávamos muito para as estrelas quando o meu pai estava vivo...

As mesmas estrelas continuavam por lá, após 30 anos de ausência, quando voltei para a minha casa. 

E lá continuam até hoje. 

Constelações familiares.

Cruzeiro do Sul. Três Marias...

 

Mas nós já temos o nosso Norte. 

Somos tribais...

Construímos as nossas tribos e as nossas resistências. 


Jovens estudantes, dentro das Universidades e Faculdades, juntos aos seus professores, distantes de sua origem"caipira" buscavam analisar os documentos e reescrever a sua própria história... mas... agora era preciso  muní-los com evidências!

Não basta mais apenas as palavras. 

Pois muitas histórias do passado, com o tempo e a criatividade alheia, viravam estórias para serem contadas entre os risos dos incautos. 

Brasileiros buscando “evidências” como se a sua história, a sua memória e a sua própria identidade não o fossem!

Sendo que a maior evidência eram eles memos  e o seu corpo !

E as suas histórias e memórias. 

 

O olhar acadêmico vem de uma forma “velada”, “misteriosa” e “oculta” lançar mal-estar inconsciente sobre a sua própria cultura. 

Por outro lado, esse mesmo olhar acadêmico, permite se reinventar. 

 

E a deputada índia aparece também como pedagoga.

E novos olhares permeiam as escolas de agora. 

E novamente a faculdade respira. 

 

Os nossos índios e negros escravizados  não tiveram tempo para empunhar bandeiras e canetas pois estavam por muito tempo com as mãos ocupadas com o trabalho braçal.

Será que havia entre eles tantas bandeiras assim: quadradas, redondas ou triangulares?

Creio que não.

 

Nunca vi estrangeiro nenhum deixar o outro dizer mal ou apontar a sua origem. 
Falar da origem de alguém é falar e esmiuçar a sua intimidade. 

É preciso zelo, cuidado e amorosidade.

Respeito.
Só existe uma versão verdadeira e única: a nossa. 


Pelo que pude perceber até hoje somos muitos líderes com estilos diferentes.  
Mas todos democratas e muito bem educados. 
Graças à Deus! 

 

A ciência da Genealogia cresce sob um novo enfoque. 

Novas genéticas. 

Novos "irmãos.

Nova consangüinidade.

 

Essa “alienação parental” se desfaz, lentamente, com o conta gotas das horas. 

Está desumanamente marcada em nossas memórias. 

Jamais será esquecida ou repovoada. 

Mas as identidades superam as feridas.

 

As marcas do passado se organizam como totens em formas de tatuagens nos corpos dos jovens da região.

Pinturas e cerâmicas vivas, produzidas através de mãos sofridas, calejadas e suadas como as dos profetas de Aleijadinho.

 

Belo Horizonte, 27 de março de 2020